segunda-feira, 27 de junho de 2011

O Professor que eu quero ser - Artigo



"O professor autoritário, o professor licencioso, o professor competente, sério, o professor incompetente, irresponsável, o professor amoroso da vida e das gentes, o professor mal-amado, sempre com raiva do mundo e das pessoas, frio, burocrático, racionalista, nenhum desses passa pelos alunos sem deixar sua marca" Paulo Freire

RESUMO

Este trabalho foi produzido com base na obra de Paulo Freire (1996), intitulada Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa e traz algumas considerações deste autor quanto ao que seja ensinar na atualidade. Apresentamos também uma breve reflexão sobre o perfil do educador ideal e a importância da valorização deste profissional enquanto responsável pela formação de cidadãos. Abordaremos os pontos que se consideram relevantes na avaliação dos docentes nos dias de hoje, os aspectos influenciadores em sua postura e carreira e o que deve ser considerado importante para os discentes que vislumbram atuarem profissionalmente como educadores.

Palavras-chave: educação, professor, discente, ensinar.

Logo que o tema para este artigo foi proposto, veio-me à memória uma consideração que acredito ser inegável: o professor, não importa em que nível do ensino atue, tem o poder de marcar a lembrança de seus alunos. Afinal, quem não se lembra daquela professora, a qual chamávamos de “tia”,que nos apresentou o mundo das primeiras palavras? Quem não se lembra daquele professor que encheu o quadro de conteúdos a serem a copiados, nos deixando a sensação de não termos aprendido nada? E quem poderia esquecer aquele professor autoritário, que mais parecia um deus de conhecimento inacessível, ao qual tínhamos medo de dirigir a palavra? Enfim, são vários os exemplos que poderíamos levantar, confirmando o poder do professor de marcar sua passagem na vida dos educandos.

A este respeito bem colocou Paulo Freire ao dizer que:


O professor autoritário, o professor licencioso, o professor competente, sério, o professor incompetente, irresponsável, o professor amoroso da vida e das gentes, o professor mal-amado, sempre com raiva do mundo e das pessoas, frio, burocrático, racionalista, nenhum desses passa pelos alunos sem deixar sua marca (1996, p.73).
PERRENOUD (2002, p.14), em sua visualização do professor ideal, destaca o papel do professor na construção de competências e afirma o papel do educador na formação de cidadãos. Para ele, o perfil do professor que defenda uma cidadania adaptada ao mundo contemporâneo registra-se no fato deste profissional ser ao mesmo tempo, entre outras coisas:

 · uma pessoa confiável;
 · mediador intercultural;
 · mediador de uma comunidade educativa;
 · organizador de uma vida democrática;
 · transmissor cultural.


De fato observamos, que dada a grande responsabilidade deste profissional com a formação de cidadãos, ser professor não é uma tarefa simples como erroneamente julgam alguns. PERRENOUD (Op. cit.) nos esclarece este conceito inadequado, exemplificando que “os alunos que querem tornar-se professores conservam a ilusão de que devem apenas dominar saberes para transmiti-los a crianças ávidas por se instruir” (p.18).

Entendemos que ensinar não é transmitir conhecimento tão somente, sejam os discentes, crianças, jovens ou adultos. Na obra Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa, Paulo Freire dedica um capítulo inteiro à desmistificação desta reflexão errônea. Para ele, muito além de transmitir conhecimento, ensinar é criar as possibilidades para a produção e construção do conhecimento, sendo que este saber precisa ser constantemente testemunhado e vivido pelo educador (1996, p.52). Ele afirma ainda, ser necessário ficar claro, que e
mbora diferentes entre si, quem forma se forma e re-forma ao formar e quem é formado forma-se e forma ao ser formado. É neste sentido que ensinar não é transferir conhecimentos, conteúdos, nem formar; é ação pela qual um sujeito criador dá forma, estilo ou alma a um corpo indeciso e acomodado. Não há docência sem discência, as duas se explicam e seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto, um do outro. Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender. (p.25)
Entretanto, a avaliação de quem é o bom professor no sistema de educação brasileiro parece não ter alcançado ainda esta reflexão. Percebemos isso ao observar que a qualificação profissional recai na titulação, na pesquisa e na produção científica (BEHRENS, 1998, p.13)
A este respeito alerta o educador Rubem Alves (2002), no artigo Não é próprio falar sobre os alunos, quando elucida que

Com isso concordam os critérios de avaliação dos docentes, impostos pelos órgãos governamentais: o que se computa, para fins de avaliação de um docente, não são as suas atividades docentes, a relação com os alunos, mas a publicação de artigos em revistas indexadas internacionais. O que esses critérios estão dizendo aos professores é o seguinte: "Vocês valem os artigos que publicam: publish or perish"! Num universo assim definido pelo discurso dos burocratas, o aluno, esse em particular, cujo pensamento é obrigação do professor provocar e educar, esse aluno se constitui num empecilho à atividade que realmente importa. Os raros professores que têm prazer e se dedicam aos seus alunos estão perdendo o tempo precioso que poderiam dedicar aos seus artigos.

Infelizmente em nosso país, a formação de professores ainda deixa a desejar no que tange à qualificação pedagógica. Contudo, os desafios não limitam-se somente a este problema, outro agravante refere-se ao fato de que a educação no Brasil e na maioria dos países, é um instrumento de reprodução das desigualdades e de sujeição das massas ao pensamento dominantes (PERRENOUD, 2002, p.13) e talvez por esse motivo tão relegada a condições inadequadas de ensino e salários, fato que explica a postura de alguns profissionais, embora não justifique, conforme FREIRE
"Não posso desgostar do que faço, sob pena de não fazê-lo bem. Desrespeitado com gente no desprezo a que é relegada a prática pedagógica não tenho porque desamá-la e aos educandos. Não tenho porque exercê-la mal ". (1996, p.75).


As reflexões que colocamos aqui são apenas algumas em um universo de desafios que rodeiam a educação no Brasil e existem muitas outras considerações que poderíamos fazer sobre este assunto.

Contudo, o que se exige do professor ideal, ou daquele que, enquanto educadora em formação, gostaria de ser em meio a esta diversidade de desafios dos quais há consciência, é que compreenda sua função de formador de cidadãos e a educação como uma forma de intervenção no mundo. Que tenha competência profissional em sua área de formação, já que “a incompetência profissional desqualifica a autoridade do professor” (FREIRE, 1996, p.103)

Este profissional deverá essencialmente compreender que ensinar vai muito além da simples e mecânica transmissão de conteúdos e sabendo disso, deverá ter sensibilidade à realidade de seus alunos, respeitando os conhecimentos de experiência com que estes chegam à sala de aula, sabendo ouvir e falar humildemente com cada cidadão sob sua responsabilidade.

O professor que quero ser é um profissional que reafirma seus ensinamentos pelo exemplo, já que “as palavras a que falta corporeidade do exemplo, pouco ou quase nada valem” (Op. cit., p.38). É também um educador que não somente respeita, mas estimula a autonomia do educando, considerando-se isto como “um imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros” (Op. cit., p.66).

O professor ideal é um estimulador da curiosidade do educando, visto que esta provoca a imaginação, a intuição e as emoções e “se há uma prática exemplar como negação da experiência formadora, é a que dificulta ou inibe a curiosidade do educando e, em conseqüência, a do educador” (Op. cit. p.94)

Finalmente, salta aos nossos olhos as sábias palavras do educador Paulo Freire, ao refletir sobre a experiência dos discentes que vislumbram serem professores no futuro, e retomam as primeiras considerações mencionadas no inicio deste texto:

É interessante observar que minha experiência discente é fundamental para a prática docente que terei amanhã ou que estou tendo agora simultaneamente com aquela. É vivendo criticamente a minha liberdade de aluno que em grande parte, me preparo para assumir ou refazer o exercício de minha autoridade de professor. Para isso, como aluno hoje que sonha em ensinar amanhã ou como aluno que já ensina hoje devo ter como objeto de minha curiosidade as experiências que venho tenho com professores vários e as minhas próprias, se as tenho com meus alunos. O que quero dizer é o seguinte: não devo pensar apenas sobre os conteúdos programáticos que vêm sendo expostos ou discutidos pelos professores das diferentes disciplinas, mas ao mesmo tempo, a maneira mais aberta, dialógica, ou mais fechada, autoritária, com que este ou aquele professor ensina. (Op. cit., p.101)

Para nós, discentes em formação para a docência, fica um questionamento: de que forma, eu, discente hoje, me empenharei em minha formação para, docente amanhã, marcar meus discentes para intervirem positivamente, na sociedade em que atuarão? Paulo Freire responde.
 24/5/2007 - LEITE, Laíze dos Santos


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ALVES, Rubem. Não é próprio falar sobre os alunos. Sinapse. In: Folha de São Paulo. Disponível emhttp://www1.folha.uol.com.br/folha/sinapse/ult1063u55.shtml. Acesso em 10/12/2006.

BEHRENS, Marilda Aparecida. A Formação Pedagógica e os Desafios do Mundo Moderno. In: MASETTO, Marcos (Org.). Docência na Universidade. Campinas, São Paulo: Papirus, 1998. 

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

PERRENOUD P. A formação dos professores no século XXI. In: PERRENOUD P., THURLER M. G. As competências para ensinar no século XXI: a formação dos professores e o desafio da avaliação. Porto Alegre: Artmed, 2002.


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